JuJutsu - A gentil arte da adaptação
Levado à letra, Jujutsu significa a arte da flexibilidade, adaptabilidade. 'Ju' significa gentil, flexível, adaptável, 'jutsu' significa arte.
Uma definição possível será designar o Jujutsu como a arte da adaptação flexível. No Jujutsu, o estudante vê-se na necessidade de ceder ou fluir com o ataque, ao mesmo tempo que pode oferecer resistência momentânea de forma a quebrar o equilíbrio do atacante, numa sensibilidade para estes pormenores só atingida por anos de treino. O verdadeiro Jujutsu é o que consegue o máximo efeito com o mínimo de esforço.
Ao contrário das outras artes marciais, o Jujutsu não tem uma fácil observação ao longo da História, se procurarmos por uma visão organizada, estruturada. Apesar de o Jujutsu ser um dos mais antigos sistemas marciais em forma de arte, as suas ramificações, a sua longevidade, apesar de registadas fidedignamente em documentos históricos inquestionáveis, não deixa de ser muito difícil rastrear uma visão de conjunto porque se espraia pela História e pela prolífera variação de estilos, escolas, filosofias, de uma forma impressionante, que qualquer tentativa de unificação e definição peca sempre por escassa. Não que não seja possível, mas porque será sempre aquém do que se passou na realidade, até porque muito se perdeu na noite dos tempos.
É fácil remontar às origens de uma arte marcial, quando ela provém de uma simples fonte. No caso do Jujutsu, por causa da sua longevidade, do seu carácter seminal, o próprio Jujutsu é a fonte, que por sua vez tem a montante outras formas, outras fontes, para sempre perdidas, por não estarem documentadas. O Jujutsu é a arte marcial nuclear mais antiga, documentada. Temos testemunhos da sua existência que remontam até 2500 anos atrás. Indicadores apontam para que no início, o Jujutsu foi desenvolvido pelas classes baixas da população que se via envolvida na guerra, e que sem meios para comprar armas e armaduras teve de desenvolver um corpo de técnicas eficientes que possibilitasse a manutenção da vida. Pouco depois o Jujutsu mercê da sua eficácia e também da interdição de um nobre ou superior desembainhar a katana para lutar com um subordinado da classe mais baixa, espalhou-se por todas as classes sociais, mas desde o início que está associado ao combate desarmado dos mais pobres, sem no entanto deixar de incorporar o combate com armas. Apesar de ser a arte do Samurai, encontramos antes de 750 A.C. registos de combate corpo a corpo marcial. Apesar de raramente o Samurai se encontrar desarmado, praticava a luta desarmada, e isto apesar de o Jujutsu também incorporar treino de armas. Está historicamente assente que o Jujutsu precede a instituição Samurai.
Vários estudiosos apresentam estudos que traçam a origem do combate desarmado no Japão, fora do Japão. Seja a noção de que descende da antiga luta 'pancrácio' praticada na cultura grega das viagens de Alexandre, depois misturada com os sistemas indianos, levada para Shaolin nas viagens dos monges, seja a noção de que o Jujutsu é descendente de estilos de luta desarmada da China, como por exemplo o Shorinji Kenpo ( kempo na China). Outros estudos indicam o Jujutsu como descendente dos estilos de luta livre autóctones do Japão. Seja qual for a origem, o Jujutsu mercê da sua eficácia torna-se a arte de elite eleita pelos samurais, na instituição da ordem e pacificação do Japão.
 A idade média japonesa vê florescer o Jujutsu, não apenas a um nível técnico onde as escolas – ryu – se multiplicam exponencialmente, mas acima de tudo, a um nível filosófico, com especial ênfase na componente ética e metafísica, por causa da idiossincrasia religiosa do povo do Sol Nascente. Assim o Jujutsu é a esteira nuclear do Bushido, a via do guerreiro, e do Budo, a via marcial. Apesar da brutalidade de algumas das suas técnicas, o Jujutsu actual foi modelado na era Edo (1603-1868) na medida em que a estratégia de guerra muda diminuindo a necessidade de exércitos com grande número de infantaria, e também porque ao ser proibido o duelo até à morte em tempo de paz, a dureza e violência das técnicas diminui também, começando-se desenvolver capacidade de controlar ou desabilitar o adversário utilizando métodos não violentos. O Jujutsu é uma arte seminal, significando isto que é uma arte de onde outras derivam. Temos o caso do Judo, Aikido e Karate-do.
Temos também o caso do Jiujitsu brasileiro que é descendente directo do Judo, e que cobre pequena parte de todo o programa técnico do Jujutsu tradicional japonês, e que foi introduzido no Brasil por um mestre Japonês de nome Mitsuyo Maeda em 1917. Desde aí foi desenvolvido e tornado popular através dos combates de vale tudo, e ganha a notoriedade que lhe reconhecemos mediaticamente hoje. Estas artes germinaram, fundamentalmente devido a três factores : - A modernização do Japão e a consequente ocidentalização das instituições torna obsoleto o treino marcial e com ele a instituição Samurai, a arte marcial transforma-se em desporto;
- A complexidade do Jujutsu, fez proliferar uma miríade de escolas ou estilos–ryu-, e no entanto, não permitiu uma sistematização ou corpo doutrinário e técnico, que só foi estabelecido com o desmembrar em várias artes ou 'do';
- Antes da modernização nipónica, o Jujutsu começa a ganhar má fama devido aos praticantes e escolas envolverem-se frequentemente em combates e acções violentas, decorrentes da adesão ao Jujutsu por causa da sua eficácia, e pondo de lado a sua importante vertente filosófica, ética.
O que leva o Imperador a assentar o Judo como arte de eleição e a 'expulsar' todos os mestres de Jujutsu tradicional, que do Japão se fixaram em outros países. O Jujutsu ganha má fama, porque por um lado é visto como a arte anacrónica dos samurais, por outro porque o perder de importância desta instituição faz com que as escolas tenham de se abrir a todo o tipo de pessoas, e muitas delas sem as melhores intenções, e assim decai na altura o Jujutsu para uma arte de arruaceiros, violenta, e prestes a extinguir-se, não fosse o caso de ter surgido Jigoro Kano. O Jujutsu na sua mais pura forma, não é nem pode ser um desporto. Na sua mais pura forma física é violência cirúrgica. No entanto quer a sua filosofia, quer a sua metodologia de treino reduzem as lesões ao máximo, tornando-o uma das mais seguras disciplinas de combate marcial devido ao respeito pelo parceiro de treino. Até aos anos 50 do século passado, o Jujutsu era a arte escolhida para forças policiais e militares de todo o mundo. O 'aparecimento' de outras disciplinas e a força de 'marketing' das mesmas, fez com que se tenham tomado outras escolhas, sempre sob a designação de 'mais modernas e eficazes'. O Jujutsu é então uma arte marcial japonesa que utiliza golpes nas articulações, como torções de braço, tornozelo e estrangulamentos, para imobilizar o oponente incluindo também quedas, golpes traumáticos e defesas pessoais, como saídas de gravata, esquivas, projecções, treino de armas tradicionais japonesas, etc. , onde tem como filosofia a máxima eficácia, seja na adaptação ao ataque, seja na utilização mínima possível da força para obter o melhor resultado, seja este o dano, a distracção ou dominação. É uma arte marcial muito completa e muito simples, e é aí que reside sua complexidade. O Jujutsu não é um desporto, como o Judo ou a luta livre, e a sua metodologia de treino está vocacionada para a defesa pessoal. Existem competições de Jujutsu, recentes, e viradas para o espectáculo, mas que nada terão a ver com o Jujutsu clássico e tradicional. Graças ao seu carácter tradicionalista, esta arte traça uma ligação nítida ao país de origem, pelo que estudar Jujutsu implica aprender também sobre o Japão, sua cultura, História e tradições. Esteticamente, e simplificando em demasia, podemos ver no Jujutsu as projecções do Judo, movimentação e estratégia de movimento do Aikido, e o golpear do Karate. Com isto não estamos a dizer que a combinação destas disciplinas forma o Jujutsu. Não só foram concebidas como corpo autónomo, como ganharam lugar próprio nas artes marciais e desporto, mercê de desenvolvimento técnico e doutrinário independente e igualmente 'válido'.
No entanto, o Jujutsu não deixa de ser a raiz destas respeitáveis artes, complementos (tal como o Jujutsu) e nunca derivações do verdadeiro espírito do Budo. A Federação Portuguesa de Jujutsu e Disciplinas Associadas, tem mantido esta tradição viva, seja através da acção de apoio à formação, seja da representação que faz da modalidade, a nível nacional e a nível internacional. Disciplinas associadas Terapêuticas: Shiatsu – É uma técnica de massagem japonesa, de origem chinesa, que trabalha com pressão dos dedos os meridianos energéticos do corpo humano. Seitai – É uma antiga técnica japonesa de manipulação da coluna vertebral e demais articulações. Kuatsu – Arte japonesa da reanimação; Marciais: Kobudo – Caminho, via marcial antiga, que se caracteriza pelo estudo de armas antigas e não convencionais (Nunchakus, etc.) Kobujutsu – Arte antecessora do Kobudo, oriunda da província de Okinawa, elaborada pelos camponeses autóctones. Taijutsu – Antigamente era sinónimo de Jujutsu, mais recentemente introduzido em França por Roland Hernaez, que se cinde em Taijutsu e Nihon Taijutsu, sem no entanto se criarem alterações tão acentuadas que neguem o carácter do Jujutsu tradicional. Actualmente o nosso núcleo de Nihon Taijutsu, único em Portugal, encontra-se em funcionamento no dojo de Matosinhos. Em Portugal A introdução das artes marciais japonesas em Portugal começa na mais antiga Associação de artes marciais do país, a União Portuguesa de Budo, fundada pelo Mestre António Hilmar Schalck Corrêa Pereira, (iniciado no Jujutsu na década de 30 em Berlim), no entanto anteriores tentativas por Mestres japoneses (Hirano e Raku) de Jujutsu ocorreram, mas de forma esporádica. Apesar de ser praticante de Jujutsu, o Mestre Corrêa Pereira é responsável pela introdução em Portugal do Karaté e do Judo. Aluno, estudante na União Portuguesa de Budo, praticante há mais de 30 anos, o Mestre Luís Fernando, 7º Dan de Jujutsu, Mestre de Judo, Instrutor do Corpo de Intervenção da PSP, é o mais graduado Mestre de Jujutsu em Portugal, e um dos mais antigos praticantes, e muito tem feito pela preservação e projecção desta arte milenar. Nomeadamente mais de 30 anos de ensino, promoção de estágios internacionais e criação da Federação Portuguesa de Jujutsu e Disciplinas Associadas.
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